Energia limpa que não chega à tomada: por que o Brasil está reduzindo parte da geração de energia solar e eólica

por | 18 de setembro de 2026 | Notícias

O excesso de oferta e as limitações da rede levam o país a reduzir a produção das usinas renováveis. Entenda o que é o chamado “curtailment” e por que a transmissão, as baterias e o consumo fazem parte da solução.

Imagine um domingo de manhã.

O sol está forte, os ventos estão soprando e as usinas brasileiras têm capacidade para produzir muita energia renovável.

Mas há um problema: não há demanda suficiente naquele momento e a rede não consegue transportar nem absorver toda essa eletricidade.

Nesse cenário, o operador do sistema pode determinar que algumas usinas reduzam sua produção.

É o que se chama de “curtailment”, ou seja, corte na geração.

O fenômeno ganhou destaque no Brasil justamente quando o país ampliou rapidamente sua capacidade de geração de energia solar e eólica. Em 2025, as duas fontes já respondiam juntas por 26,4% da geração de eletricidade brasileira, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A energia solar produziu 88,1 TWh e a eólica, 116,5 TWh. (EPE)

Ao mesmo tempo, o sistema precisa lidar com uma questão que parece contraditória:

Como pode faltar espaço para uma energia que o Brasil tem em abundância?

O problema não é a falta de energia. É a falta de capacidade para utilizá-la naquele momento

O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Em 2025, 86,8% da matriz elétrica era renovável, segundo a EPE. (EPE)

O desafio está na combinação entre onde a energia é produzida, quando ela é produzida e onde ocorre o consumo.

As usinas eólicas estão concentradas principalmente no Nordeste, enquanto os grandes centros de consumo estão espalhados por todo o país.

A energia solar, por sua vez, produz bastante durante o dia — justamente em alguns períodos em que a demanda não acompanha o crescimento da geração.

A ONS destaca que o curtailment ocorre tanto por restrições elétricas — relacionadas à capacidade e à segurança da transmissão — quanto por motivos energéticos, quando há mais oferta do que o sistema consegue absorver naquele momento. Em 2025, as restrições por motivos energéticos passaram a representar a maior parcela dos cortes nas usinas eólicas e fotovoltaicas. (ONS)

É como ter água em excesso em uma região, mas não dispor de tubulações suficientes para levá-la até onde ela é necessária.

E isso aumenta a conta de luz?

Aqui é preciso fazer uma distinção importante.

Isso não significa que cada corte na produção de uma usina de energia renovável se traduza automaticamente em um aumento na conta de luz do consumidor.

Mas o problema pode acarretar custos para o sistema.

Quando uma fonte renovável deixa de gerar energia devido a uma restrição, outras fontes podem ser necessárias para atender à demanda. Dependendo das condições do sistema, isso pode aumentar a necessidade de geração mais cara, além de gerar impactos financeiros para os agentes cuja produção foi restringida.

A questão chegou até mesmo ao âmbito regulatório.

Em 2026, o governo estabeleceu regras para o ressarcimento de geradores afetados por determinados cortes na geração de energia. As compensações discutidas totalizam cerca de R$ 3,5 bilhões, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo. A regra, porém, não abrange todas as situações de restrição de geração, incluindo cortes provocados por excesso de oferta. (Folha de S.Paulo)

Por isso, dizer que “os 20 TWh desperdiçados serão cobrados diretamente na conta de luz” seria simplificar demais a questão.

A questão é mais ampla: o sistema investiu para produzir energia que nem sempre consegue transformar em energia efetivamente fornecida ao consumidor.

Por que simplesmente não construir mais linhas?

Essa é uma das principais respostas — e o Brasil já está fazendo isso.

Em 2025, foram adicionados 5.582 quilômetros de linhas de transmissão, elevando a extensão da rede brasileira para 181.782 km. (EPE Dashboard)

A lógica é relativamente simples:

Mais transmissão = maior capacidade de transportar energia de onde há excedente para onde há demanda.

Mas construir linhas leva tempo.

Além das obras físicas, há etapas de planejamento, licenciamento, contratação e implantação.

Por isso, a expansão da geração de energia renovável pode ocorrer em um ritmo diferente do da expansão da infraestrutura necessária para transportá-la.

A ANEEL mantém painéis específicos para acompanhar empreendimentos, reforços e melhorias na rede de transmissão do país. (Serviços e Informações do Brasil)

As baterias podem mudar esse cenário

Outra solução que está começando a ganhar espaço é o armazenamento de energia.

A ideia é simples:

Quando há energia excedente, ela pode ser armazenada.

Quando a produção diminui ou a demanda aumenta, essa energia pode ser utilizada.

Em 2026, a EPE registrou 6.091 projetos interessados nos Leilões de Reserva de Capacidade por meio de sistemas de armazenamento em baterias. Juntos, os projetos somam 296.807 MW de potência cadastrada. (EPE)

Isso não significa que todos esses projetos serão construídos. Trata-se de empreendimentos registrados para participar dos processos de contratação.

Mas o número mostra que o armazenamento passou a fazer parte, de vez, da agenda do setor elétrico brasileiro.

A EPE e o ONS também já estabeleceram requisitos técnicos para a conexão desses sistemas à rede elétrica. (EPE)

E se aumentarmos o consumo justamente quando há energia de sobra?

Essa é outra parte da equação.

O próprio ONS destaca que novos consumidores e a resposta da demanda podem ajudar a reduzir os cortes.

A lógica é aproveitar melhor a energia justamente nos horários em que há maior oferta.

Um exemplo é transferir determinados processos industriais para períodos em que há maior disponibilidade de eletricidade.

O programa de Resposta à Demanda permite que consumidores qualificados reduzam sua carga quando isso for necessário para o funcionamento do sistema. Segundo o ONS, o mecanismo visa contribuir para a confiabilidade e para a modicidade tarifária. (ONS)

Ou seja, o futuro do sistema elétrico não depende apenas de produzir mais.

Depende de produzirmos, transportarmos, armazenarmos e consumirmos melhor.

O Brasil precisa de mais energia limpa?

A resposta não é simplesmente “sim”.

O desafio agora é garantir que a energia renovável que já está sendo produzida seja aproveitada de forma eficiente e confiável.

O ONS projeta que os cortes na geração de energia renovável continuarão sendo significativos nos próximos anos, especialmente em períodos de alta produção solar e eólica. Entre as soluções apontadas estão o armazenamento, a flexibilidade operacional, a resposta à demanda, novos consumidores e a expansão da rede de transmissão. (ONS)

Isso muda um pouco o panorama da transição energética.

O próximo passo não é apenas construir mais usinas.

É construir uma infraestrutura capaz de garantir que a energia chegue ao consumidor no momento certo.

Em resumo

Mais geração de energia renovável → aumenta a oferta de energia limpa.

Mais transmissão → permite levar essa energia até onde ela é necessária.

Mais espaço de armazenamento → permite guardar parte do excedente para outros momentos.

Resposta à demanda → ajuda a deslocar o consumo para períodos de maior oferta.

Maior integração entre geração, rede e consumo → aumenta o aproveitamento da energia já produzida.

O Brasil já conta com sol, vento e uma matriz elétrica predominantemente renovável.

O próximo desafio é fazer com que essa abundância deixe de ser apenas potencial — e se transforme em energia disponível, confiável e economicamente eficiente para quem está na ponta da rede.