Excesso de oferta e limitações da rede fazem o país reduzir a produção de usinas renováveis. Entenda o que é o chamado curtailment e por que transmissão, baterias e consumo são parte da solução.
Imagine um domingo de manhã.
O sol está forte, os ventos estão soprando e as usinas brasileiras têm capacidade para produzir muita energia renovável.
Mas existe um problema: não há demanda suficiente naquele momento e a rede não consegue transportar ou absorver toda essa eletricidade.
Nesse cenário, o operador do sistema pode determinar que algumas usinas reduzam sua produção.
É o chamado curtailment, ou corte de geração.
O fenômeno ganhou importância no Brasil justamente quando o país ampliou rapidamente sua capacidade de geração solar e eólica. Em 2025, as duas fontes já responderam juntas por 26,4% da geração de eletricidade brasileira, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A solar produziu 88,1 TWh e a eólica, 116,5 TWh. (EPE)
Ao mesmo tempo, o sistema precisa lidar com uma questão que parece contraditória:
como pode faltar espaço para uma energia que o Brasil tem em abundância?
O problema não é falta de energia. É falta de capacidade para usá-la naquele momento
O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Em 2025, 86,8% da matriz elétrica era renovável, de acordo com a EPE. (EPE)
O desafio está na combinação entre onde a energia é produzida, quando ela é produzida e onde está o consumo.
Usinas eólicas estão concentradas principalmente no Nordeste, enquanto grandes centros consumidores estão espalhados pelo país.
A energia solar, por sua vez, produz muito durante o dia — justamente em alguns períodos em que a demanda não acompanha o crescimento da geração.
O ONS aponta que o curtailment ocorre tanto por restrições elétricas, relacionadas à capacidade e segurança da transmissão, quanto por razões energéticas, quando existe mais oferta do que o sistema consegue absorver naquele momento. Em 2025, as restrições por razões energéticas passaram a representar a maior parcela dos cortes de eólicas e fotovoltaicas. (ONS)
É como ter água em excesso em uma região, mas não contar com tubulações suficientes para levá-la até onde ela é necessária.
E isso aumenta a conta de luz?
Aqui é preciso fazer uma distinção importante.
Não significa que cada corte de uma usina renovável apareça automaticamente como um aumento na conta de luz do consumidor.
Mas o problema pode gerar custos para o sistema.
Quando uma fonte renovável deixa de gerar por uma restrição, outras fontes podem ser necessárias para atender à demanda. Dependendo das condições do sistema, isso pode aumentar a necessidade de geração mais cara, além de gerar impactos financeiros para os agentes que tiveram sua produção restringida.
O tema chegou inclusive à regulação.
Em 2026, o governo estabeleceu regras para ressarcimento de geradores afetados por determinados cortes de geração. As compensações discutidas somam cerca de R$ 3,5 bilhões, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo. A regra, porém, não contempla todas as situações de curtailment, incluindo cortes provocados por excesso de oferta. (Folha de S.Paulo)
Por isso, dizer que “20 TWh desperdiçados serão cobrados diretamente na conta de luz” seria simplificar demais o problema.
A questão é mais ampla: o sistema investiu para produzir energia que nem sempre consegue transformar em energia efetivamente entregue ao consumidor.
Por que simplesmente não construir mais linhas?
Essa é uma das principais respostas — e o Brasil já está fazendo isso.
Em 2025, foram adicionados 5.582 quilômetros de linhas de transmissão, levando a rede brasileira a 181.782 km. (EPE Dashboard)
A lógica é relativamente simples:
mais transmissão = maior capacidade de transportar energia de onde há excesso para onde existe demanda.
Mas construir linhas leva tempo.
Além das obras físicas, existem etapas de planejamento, licenciamento, contratação e implantação.
Por isso, a expansão da geração renovável pode acontecer em uma velocidade diferente da expansão da infraestrutura necessária para transportá-la.
A ANEEL mantém painéis específicos para acompanhar empreendimentos, reforços e melhorias da transmissão no país. (Serviços e Informações do Brasil)
As baterias podem mudar esse cenário
Outra solução que começa a ganhar espaço é o armazenamento de energia.
A ideia é simples:
quando existe energia sobrando, ela pode ser armazenada.
Quando a produção cai ou a demanda aumenta, essa energia pode ser utilizada.
Em 2026, a EPE registrou 6.091 projetos interessados nos Leilões de Reserva de Capacidade por meio de sistemas de armazenamento em baterias. Juntos, os projetos somam 296.807 MW de potência cadastrada. (EPE)
Isso não significa que todos esses projetos serão construídos. São empreendimentos cadastrados para participar dos processos de contratação.
Mas o número mostra que o armazenamento entrou definitivamente na agenda do setor elétrico brasileiro.
A EPE e o ONS também já estabeleceram requisitos técnicos para a conexão desses sistemas ao sistema elétrico. (EPE)
E se aumentarmos o consumo justamente quando existe energia sobrando?
Essa é outra parte da equação.
O próprio ONS aponta que novos consumidores e resposta da demanda podem ajudar a reduzir os cortes.
A lógica é aproveitar melhor a energia justamente nos horários em que existe maior oferta.
Um exemplo é deslocar determinados processos industriais para períodos de maior disponibilidade de eletricidade.
O programa de Resposta da Demanda permite que consumidores habilitados reduzam sua carga quando isso é necessário para a operação do sistema. Segundo o ONS, o mecanismo busca contribuir para a confiabilidade e para a modicidade tarifária. (ONS)
Ou seja, o futuro do sistema elétrico não depende apenas de produzir mais.
Depende de produzir, transportar, armazenar e consumir melhor.
O Brasil precisa de mais energia limpa?
A resposta não é simplesmente “sim”.
O desafio agora é fazer com que a energia renovável que já está sendo produzida seja aproveitada de forma eficiente e confiável.
O ONS projeta que os cortes de geração renovável continuarão relevantes nos próximos anos, especialmente em períodos de grande produção solar e eólica. Entre as soluções apontadas estão armazenamento, flexibilidade operacional, resposta da demanda, novos consumidores e expansão da transmissão. (ONS)
Isso muda um pouco a conversa sobre transição energética.
O próximo capítulo não é apenas construir mais usinas.
É construir uma infraestrutura capaz de fazer a energia chegar ao consumidor na hora certa.
Em resumo
Mais geração renovável → aumenta a oferta de energia limpa.
Mais transmissão → permite levar essa energia para onde ela é necessária.
Mais armazenamento → permite guardar parte do excedente para outros momentos.
Resposta da demanda → ajuda a deslocar o consumo para períodos de maior oferta.
Mais integração entre geração, rede e consumo → aumenta o aproveitamento da energia já produzida.
O Brasil já tem sol, vento e uma matriz elétrica majoritariamente renovável.
O próximo desafio é fazer com que essa abundância deixe de ser apenas potencial — e se transforme em energia disponível, confiável e economicamente eficiente para quem está na ponta da rede.
