Os veículos elétricos já representam uma parcela significativa das vendas de veículos no país. Veja quanto custa recarregá-los em casa, compare com a gasolina e entenda quando um carro elétrico pode ser uma boa opção para o seu bolso.
O carro elétrico deixou de ser uma novidade distante para se estabelecer de vez no mercado brasileiro.
De janeiro a agosto de 2026, foram matriculados 328.477 veículos leves eletrificados no Brasil, um aumento de 160,5% em relação ao mesmo período de 2025. Somente os modelos 100% elétricos, conhecidos como BEV, totalizaram 27.166 unidades em agosto. (ABVE)
Mas, para quem está pensando em comprar um, a pergunta mais importante não é apenas quanto custa o carro.
É:
Quanto custa, na verdade, andar com ele todos os dias?
A resposta depende de três fatores principais: preço do veículo, custo da eletricidade e autonomia.
Quanto custa percorrer 100 km em um carro elétrico?
A conta é relativamente simples:
custo por km = consumo do carro × preço do kWh
Para fazer uma comparação, vamos considerar uma tarifa residencial de aproximadamente R$ 0,80/kWh. A tarifa varia bastante de acordo com a distribuidora, o estado, os impostos, a bandeira tarifária e o horário de consumo. Em março de 2026, a Volvo, por exemplo, utilizava R$ 0,794/kWh como referência média nacional com base em dados da Aneel. (Volvo Cars)
Já a gasolina comum estava a R$ 6,53 por litro, em média nacional, entre os dias 6 e 12 de setembro, segundo dados da ANP. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso permite fazer uma comparação simples.
Um carro a combustão que faz 12 km/l gastaria:
R$ 6,53 ÷ 12 = R$ 0,54 por km
Ou cerca de R$ 54,40 para percorrer 100 km.
Um carro elétrico que consuma 9 km/kWh:
R$ 0,80 ÷ 9 = R$ 0,089 por km
Ou cerca de R$ 8,90 para percorrer 100 km.
A diferença é significativa.
Mas há um detalhe importante: essa conta é válida para quem consegue carregar principalmente em casa.
Quanto custa carregar um carro elétrico?
Vamos usar como exemplo o BYD Dolphin Mini, um dos carros elétricos mais vendidos do país.
O modelo possui uma bateria de aproximadamente 38 kWh e autonomia homologada de 280 km pelo Inmetro. (BYD)
Uma carga completa, considerando R$ 0,80/kWh:
38 kWh × R$ 0,80 = R$ 30,40
Ou seja, aproximadamente R$ 30 por uma carga completa.
Dividindo esse valor pelos 280 km de autonomia homologada:
R$ 30,40 ÷ 280 = R$ 0,11 por km
Na prática, portanto, seriam cerca de R$ 11 a cada 100 km, tomando como referência a autonomia oficial.
E há uma diferença importante: a autonomia declarada não é uma garantia de que o carro sempre percorrerá exatamente essa distância.
Velocidade, trânsito, temperatura, relevo, peso, ar-condicionado e estilo de direção influenciam o resultado. A própria BYD alerta que a autonomia real pode variar de acordo com essas condições. (BYD)
E quanto custa um tanque de gasolina?
Aqui está uma comparação simples:
Quanto custa percorrer 100 km?
Para um carro elétrico como o Dolphin Mini, considerando a energia a R$ 0,80/kWh, o custo fica em aproximadamente R$ 11 por 100 km.
Já um carro a gasolina que faz 12 km/l, com a gasolina a R$ 6,53 por litro, gasta cerca de R$ 54 para percorrer os mesmos 100 km.
Em uma comparação direta, rodar com gasolina custa cerca de 5 vezes mais.
Trata-se de uma comparação de consumo de energia, e não do custo total do carro. Seguro, IPVA, depreciação, financiamento, pneus e manutenção não estão incluídos.
Os carros elétricos mais vendidos em 2026
O mercado também está se tornando mais diversificado.
Entre os veículos elétricos puros mais vendidos em 2026 estão modelos como o BYD Dolphin Mini, o BYD Dolphin e o Geely EX2. Em julho, os três lideraram o ranking de BEVs, de acordo com dados de matrículas compilados pelo setor automotivo. (InsideEVs Brasil)
O Dolphin Mini, por exemplo, tem preço sugerido de R$ 119.990 em uma promoção registrada pela BYD para agosto de 2026, enquanto o Dolphin aparecia com preço de lançamento de R$ 149.990 na linha 2026. Os preços podem variar de acordo com a versão, disponibilidade, promoções e região. (BYD)
O Geely EX2 também entrou com tudo na disputa. Em um teste da Quatro Rodas, a versão Max custava R$ 136.800, tinha autonomia de 289 km segundo o padrão informado e consumo medido de 8,6 km/kWh na cidade e 8 km/kWh na estrada. (Quatro Rodas)
Autonomia: o número da propaganda não é o número da sua viagem
Essa é uma das maiores dúvidas de quem nunca teve um carro elétrico.
O número que consta na ficha técnica é obtido em condições padronizadas de teste.
Na vida real, a autonomia pode ser menor.
Em um teste da Quatro Rodas, por exemplo, o Dolphin Mini apresentou consumo de 12 km/kWh na cidade e 9,2 km/kWh na estrada. (Quatro Rodas)
Isso mostra uma diferença importante:
A cidade e a estrada podem apresentar resultados bastante diferentes.
Em trajetos urbanos, o sistema de regeneração e as velocidades mais baixas podem contribuir para a eficiência.
Na estrada, velocidades mais altas aumentam o consumo.
Por isso, quem compra um carro elétrico deve se preocupar menos com a pergunta “quantos quilômetros ele percorre?” e mais com:
Quantos quilômetros eu percorro por dia?
E se eu pedalar 40 km por dia?
Vamos imaginar uma pessoa que percorre 40 km por dia.
Em 30 dias:
40 × 30 = 1.200 km por mês
Se o carro consumir aproximadamente 9 km/kWh:
1.200 ÷ 9 = 133 kWh
Com energia a R$ 0,80/kWh:
133 × R$ 0,80 = aproximadamente R$ 107 por mês
Agora imagine um carro a gasolina com consumo de 12 km/l.
Para percorrer os mesmos 1.200 km:
1.200 ÷ 12 = 100 litros
Com a gasolina a R$ 6,53:
100 × R$ 6,53 = R$ 653
A diferença seria de aproximadamente R$ 546 por mês apenas em energia/combustível.
Em um ano, isso daria cerca de R$ 6.500.
Mas, mais uma vez: isso não significa que o carro elétrico seja necessariamente mais barato no custo total de propriedade. O preço de compra, o seguro, o financiamento, a depreciação e outras despesas fazem parte do cálculo.
E a manutenção?
Um carro elétrico possui menos componentes mecânicos associados ao sistema de propulsão do que um veículo convencional.
Não há, por exemplo, troca de óleo do motor elétrico.
Isso pode reduzir algumas despesas de manutenção, embora o veículo continue exigindo itens como pneus, freios, suspensão, filtros e revisões previstas pelo fabricante.
Além disso, há a bateria, que é o componente mais caro do sistema elétrico.
Por isso, antes de comprar, vale a pena verificar:
-
prazo de garantia da bateria;
-
garantia oferecida pela fabricante;
-
disponibilidade de assistência técnica;
-
preço das revisões;
-
custo das peças;
-
rede de concessionárias.
Posso carregar o carro em qualquer tomada?
Em muitos casos, sim — mas há diferenças importantes.
O carregamento em uma tomada comum é possível em determinados modelos e condições, mas é mais lento.
Uma wallbox instalada em casa pode aumentar bastante a velocidade de recarga.
Já os carregadores rápidos de corrente contínua (CC) são importantes para viagens e deslocamentos mais longos.
A infraestrutura brasileira também está crescendo. De acordo com um levantamento da ABVE/Tupi, o país chegou a 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga em maio de 2026, um crescimento de 20,7% em apenas três meses. (ABVE)
Isso representa um avanço significativo, mas a distribuição ainda não é uniforme em todo o país.
Para quem mora em apartamento ou viaja com frequência, essa é uma das primeiras coisas a verificar antes da compra.
Então, o carro elétrico é para todo mundo?
Não.
E esse é, talvez, o principal mito que precisa ser desmascarado.
O carro elétrico tende a ser uma opção mais adequada para quem:
-
anda bastante pela cidade;
-
tem onde recarregar em casa ou no trabalho;
-
pode aproveitar as tarifas residenciais;
-
faz trajetos relativamente previsíveis;
-
pretende ficar com o veículo por alguns anos.
Já para quem:
-
mora em um condomínio sem infraestrutura para recarga;
-
não há carregamento disponível durante a rotina;
-
costuma fazer viagens longas com frequência;
-
depende exclusivamente de pontos de recarga públicos;
a experiência pode ser mais complicada.
Também é importante levar em conta que recarregar em um ponto de recarga público pode sair mais caro do que recarregar em casa, especialmente em carregadores rápidos.
5 mitos sobre carros elétricos
“Vou ficar sem bateria o tempo todo.”
Não necessariamente. Para quem percorre 30 ou 40 km por dia e consegue recarregar o veículo em casa, a autonomia de vários modelos atuais é suficiente para muitos dias de uso urbano.
“O bonde não serve para viajar.”
Funciona, mas exige planejamento. É preciso conhecer o trajeto, a autonomia e a localização dos carregadores.
“A bateria acaba rápido.”
As baterias modernas são projetadas para suportar muitos ciclos de carga, mas sua durabilidade depende do modelo, da tecnologia e das condições de uso. É importante analisar a garantia oferecida pelo fabricante antes da compra.
“O carro elétrico não precisa de manutenção.”
Sim. O que muda é a natureza da manutenção. Há menos componentes mecânicos no sistema de propulsão, mas os pneus, a suspensão, os freios, os sistemas eletrônicos e outros itens continuam exigindo cuidados.
“Se for mais barato de usar, sempre vale a pena comprar.”
Também não.
O custo por quilômetro é apenas uma parte da conta.
A conta que realmente importa
Antes de trocar de carro, faça quatro cálculos:
1. Quantos quilômetros você percorre por mês?
2. Quanto você gasta atualmente com combustível?
3. Quanto custa o kWh na sua casa?
4. Você consegue abastecer o carro regularmente?
Se você dirige pouco, não tem onde recarregar e precisará pagar um preço alto pelo veículo, a economia de combustível pode demorar mais para compensar a diferença de preço.
Se você dirige bastante, principalmente na cidade, e consegue recarregar em casa, a conta tende a ficar mais interessante.
Em 2026, o carro elétrico já não é apenas uma questão de tecnologia ou sustentabilidade. É também uma questão de economia doméstica.
A melhor escolha depende menos da promessa do “carro do futuro” e mais de uma pergunta bem simples:
Esse carro combina com a minha rotina e com o meu orçamento?
É isso que vale a pena analisar antes de fechar o negócio.
